Guia prático · LGPD

LGPD para psicólogos: o guia prático do consultório (sem juridiquês)

A cena é comum: você atende há anos com ética e sigilo impecáveis, mas na primeira vez que um paciente pergunta "meus dados estão protegidos conforme a LGPD?", vem o frio na barriga. A boa notícia: você não precisa virar advogada(o) — precisa de cinco decisões bem tomadas. A LGPD, no fundo, pede a formalização daquilo que a psicologia já faz por dever ético desde sempre: proteger o que o paciente confia a você.

Este guia percorre as cinco decisões, em linguagem de consultório.

1 · Qual é a sua base legal (spoiler: não é só consentimento)

O erro mais comum é achar que tudo depende de um termo de consentimento assinado. Para o atendimento em si, a LGPD tem uma base própria e mais sólida: dados de saúde podem ser tratados quando indispensáveis à tutela da saúde, em procedimento realizado por profissional de saúde (art. 11, II, "f"). Ou seja: registrar a evolução, manter o prontuário e conduzir o tratamento não dependem de consentimento — dependem de você ser profissional de saúde fazendo seu trabalho.

O consentimento entra para o que é acessório ao atendimento:

Por que isso importa na prática? Porque consentimento é revogável. Se o tratamento clínico inteiro se apoiasse nele, um paciente poderia "revogar" seu prontuário — e não pode: o registro é obrigação profissional sua (Resolução CFP nº 1/2009). Base legal certa em cada coisa = você protegido nos dois mundos, o do Conselho e o da LGPD.

Decisão 1: atendimento → tutela da saúde; acessórios → consentimento específico, um por finalidade.

2 · WhatsApp: o que pode e o que não deve

O WhatsApp não é vilão — é ferramenta de logística. A régua é simples:

Pode (com consentimento): confirmar e remarcar horários, enviar lembrete de sessão, enviar cobrança e recibo, mandar o link da sala on-line.

Não deve, nunca: conteúdo clínico. Nem resumo da sessão, nem orientação terapêutica por áudio, nem "como você está se sentindo hoje?" em chat aberto. Três razões práticas:

  1. O aplicativo não é prontuário: a conversa não tem o controle de acesso, a integridade nem a trilha que um registro clínico exige.
  2. A tela do celular do paciente é vista por outras pessoas — o sigilo deixa de estar sob o seu controle.
  3. Se virar hábito, o paciente passa a fazer terapia por mensagem, sem enquadre.
Exemplo do dia a dia: paciente manda áudio de 4 minutos relatando crise no domingo. Resposta que respeita a régua: acolher em uma linha e trazer para o enquadre — "Recebi, obrigada por me contar. Isso é importante — vamos trabalhar juntos na sessão de terça, e se precisar antes, me avise que abrimos um horário." O conteúdo clínico fica para a sessão; o registro do episódio, para o prontuário.
Decisão 2: WhatsApp só para logística, com consentimento registrado; clínica é na sessão e no prontuário.

3 · Prontuário digital: o mínimo que o seu sistema precisa ter

Guarda digital é plenamente válida — o CFP admite, desde que garanta sigilo, integridade e recuperação. O checklist do mínimo aceitável:

Planilha solta no Drive pessoal e arquivo de Word na área de trabalho reprovam em quase todos os itens acima. Não porque "a LGPD proíbe", mas porque não sustentam o sigilo que você já promete ao paciente.

Decisão 3: escolher onde vive o prontuário olhando esse checklist — e conseguir respondê-lo de cabeça se perguntarem.

4 · Gravação de sessão para documentação: dá para fazer certo

Gravar sessão para apoiar a documentação é legítimo — desde que o desenho respeite três condições:

  1. Consentimento específico e revogável, colhido antes, explicando exatamente para quê: apoiar o registro clínico. Não vale consentimento genérico enterrado num contrato.
  2. O áudio não vira arquivo. O desenho mais seguro é o som ser processado para gerar a transcrição e não ficar armazenado — o que se guarda é o registro clínico que você revisou, não a voz do paciente.
  3. A transcrição é registro clínico: entra no prontuário, sob o mesmo sigilo, mesmo controle de acesso e mesmo prazo de guarda de qualquer evolução.
Transparência total: somos os criadores da Teravia, uma plataforma desenhada exatamente sobre essas três condições — o consentimento fica registrado com data e hora, o áudio é processado e descartado (não existe botão "ouvir de novo": o áudio não está lá), e a nota gerada só vira prontuário depois que você revisa e assina. Os detalhes técnicos e as promessas verificáveis estão na nossa página de Segurança & Ética.
Decisão 4: se gravar, que seja com consentimento específico, áudio não armazenado e transcrição tratada como prontuário.

5 · O incidente que você espera nunca ter

Notebook furtado, celular perdido, conta de e-mail invadida. A LGPD não pune você por sofrer um incidente — ela olha o que você tinha feito antes e o que fez depois.

Depois (as 4 horas seguintes): trocar as senhas das contas afetadas e derrubar as sessões abertas; registrar por escrito o que aconteceu, quando e quais dados podem ter sido expostos; avaliar o risco real (um notebook com disco criptografado e prontuário na nuvem ≠ pastas de Word abertas); se houver risco relevante aos pacientes, comunicar os afetados e a ANPD (art. 48) — com orientação jurídica nesse ponto.

Antes (o checklist de prevenção, 6 itens):

  1. Prontuários na nuvem com login — nada de cópia local no notebook;
  2. Senha do computador + disco criptografado (BitLocker/FileVault, já vem no sistema);
  3. Autenticação em duas etapas no e-mail e na plataforma de prontuário;
  4. Senhas diferentes por serviço (gerenciador de senhas resolve);
  5. Bloqueio automático de tela no consultório;
  6. WhatsApp com verificação em duas etapas ativada.

Um profissional que mostra esse checklist cumprido e um registro organizado do incidente está em outra posição — perante a ANPD, o CRP e, principalmente, os próprios pacientes.

Decisão 5: fazer os 6 itens uma única vez, nesta semana; deixar escrito o que fazer se acontecer.

Comece pelo papel que falta

Das cinco decisões, três viram papel: o contrato terapêutico, o termo de consentimento LGPD e um guia rápido dos registros conforme o CFP. Preparei os três num kit gratuito — o Kit Consultório em Dia — que você adapta à sua prática em uma tarde.

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Este conteúdo é educativo e não substitui orientação jurídica nem a leitura das resoluções vigentes do CFP e do seu CRP regional.